Gustavo Carona: Histórias de pró-actividade alheia

Gustavo Carona

Vai para a décima missão humanitária. Tem trinta e oito anos. Duas frases que mereciam já uma vénia, mas ainda há muito para dizer sobre o Gustavo Carona.

Trabalhei com ele durante pouco tempo, em 2014, por altura da sua passagem na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocríticos do Centro Hospitalar de São João, no Porto. Por essa altura, já o Gustavo tinha feito missões humanitárias. No entanto, tenha sido pela curta convivência ou pela falta de tempo de conversa, nunca cheguei a perceber a dimensão do que ele fazia. Não tomei sequer conhecimento das missões a não ser através das redes sociais, já nenhum de nós trabalhava no mesmo sítio.

Quando isso aconteceu, senti que tinha perdido uma oportunidade: saber mais sobre as pessoas que sacrificam o seu conforto, que saem do seio familiar, que abandonam amigos durante largos meses para ajudar desconhecidos em cenários de guerra e desfavorecimento brutal não é para qualquer um.

A oportunidade chega em forma de livro. O Mundo Precisa de Saber. Não, não sou eu que afirmo. É o título do relato e é uma afirmação que o Gustavo faz frequentemente, chamando a atenção para flagelos que deflagram todos os dias pelo Mundo, sem que o “mundo” saiba.

Deixo-vos com o link. Não é meu apanágio escrever sobre um livro que ainda não tenha lido, mas a necessidade do mundo saber é mais forte. Não é pior se outros souberem primeiro, desde que todos saibam.

Voltarei a este livro mais tarde, com mais tempo e conhecimento de causa, mas este texto serve também de agradecimento. O mundo seria um lugar muito menos gracioso e bonito se não existisse o Gustavo. Se não existissem os Médicos Sem Fronteiras. Se não existissem todos aqueles que prescindem do que o Mundo tem para dar para poderem dar ao Mundo aquilo que ele mais precisa.

Este texto é, ainda, um abraço feito de palavras de força, para que às mãos destes heróis as atrocidades que nos auto-infligimos enquanto humanidade possam ser mais suportáveis para aqueles que as sofrem.

Gustavo Carona é médico e escritor. Publicou 1001 Cartas para Mossul, 1001 Cartas de Mossul e O Mundo Precisa Saber. Através da acção humanitária, viaja para lutar por um Mundo melhor, para melhorar a viagem dos menos favorecidos.

Porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Link Wook do Gustavo Carona e dos seus livros

Anúncios

Fascismo, Um Alerta ( de Madeleine Albright)

img_9947

A política tem má fama. A culpa é, obviamente, de alguns políticos. Enquanto ciência, a política não pode ser ser negligenciada. É algo inerente à comunidade que todos constituímos. Fazemos política em casa quando estabelecemos regras de comportamento para os filhos; fazemos política quando negociamos algo com o nosso cônjuge; fazemos política todos os dias quando aceitamos algum incentivo no nosso emprego. Nas nossas empresas, fazemos política quando determinamos o caminho da nossa visão, quando cumprimos um objectivo a que nos propomos ou quando chamamos um funcionário à razão.

Todos somos políticos. Ainda assim, alguns têm o péssimo hábito de repudiar a política como se de algo venenoso se trata-se. Essa atitude passiva, que equivale aproximadamente ao silêncio durante uma conversa que não pode ser interrompida, está a criar um caminho de dissabores já percorridos na História.

A discussão política propagou-se em Portugal devido às eleições brasileiras. Jornais, como o Expresso, manifestaram-se claramente quanto à sua posição. Bolsonaro despertou a paixão de uns e o arrepio de outros através da sua inequívoca razão. Ou daquela que ele acha ter, pelo menos.

Defendo a democracia como uma solução politicamente humana de resolver os problemas nacionais e mundiais. Não gosto de ditadores nem de figuras que dizem usar a voz do povo querendo estar acima deste. Não gosto de desaforos políticos ou de gritos histriónicos que alimentam os tablóides.

Manifestei-me publicamente contra a eleição do actual Presidente do Brasil. Como escrevi neste  artigo, a evolução da sua persona política recorda-me assustadoramente outras que deram ao mundo uma face cheia de cicatrizes.

Numa das minhas habituais viagens, comprei o livro de Madeleine Albright intitulado Fascismo, Um Alerta. A primeira mulher Secretária de Estado dos Estados Unidos da América, vítima indirecta do fascismo e actual professora universitária escreve-nos sobre a sua preocupação. Não é um ensaio extremamente técnico. É uma colecção de dados que se consubstanciam entre si e que provam que o fascismo é algo que teve início mas que não terá fim.img_9941

Durante a leitura tive sensações pouco comuns. Concordância plena em algumas passagens, preocupação estimulada por factos que se somam, esperança de que os sinais sejam lidos conforme no livro. Encontrei nestas páginas ideias que gostaria que a memória não perde-se, como manifestei neste meu discurso.

Madeleine não nos fala de Bolsonaro, mas fala muito sobre Donald Trump. Divide-o dos absolutamente fascistas, mas descreve as características que o Presidente dos Estados Unidos possui que o aproximam dessa corrente. Considera-o legítimo, mas refere-se negativamente ao desrespeito que nutre pelas instituições democráticas.

Madame Secretary não faz dos políticos com comportamento desviantes uma amálgama. Diferencia-os com a nitidez de quem conviveu com muitos e de quem ouviu algumas verdades das suas bocas, apesar de deturpadas em nome do poder.

Mussolini, Hitler, Chávez, Maduro, Erdogan, Putin, Trump e a dinastia Kim da Coreia do Norte são apenas alguns dos líderes dissecados nas suas características quer positivas quer perigosas (sendo, algumas delas, coincidentes).

Um livro claro, lúcido e fruto da experiência política de quem ainda hoje frequenta a esfera do poder com o conhecimento do seu efeito aditivo e corruptor.

Um livro que nos mostra que a humanidade tem um destino que desconhecemos, mas que é também através da política (e da memória) que devemos construir o seu caminho.

Para o Homem há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Competição vs. Cooperação

49cb6fc1150259231b2618073d515a4b

Competição é uma palavra muitas vezes conotada com uma atitude negativa. Como a Natureza é mais forte do que nós, a competição é algo inerente ao ser humano. Não lhe podemos fugir e, em última análise, dependemos dela enquanto espécie.
Fazendo parte do processo evolutivo a que todos estamos sujeitos enquanto pessoas, em qualquer das múltiplas dinâmicas da nossa vida, temos de participar na vida activa através dela.
Por outro lado, é indissociável da cooperação. São irmãs, duas faces da mesma moeda, ying e yang do nosso quotidiano.

Treinei jiu-jitsu durante pouco mais de um ano. Fui convidado pelo meu amigo Ricardo Silva a fazer um treino e, quando dei por mim, fazia uma aula de treino funcional antes dum treino de jiu-jitsu logo após uma noite inteira de trabalho. O meu objectivo era unicamente físico, o treino pelo treino. Até que a época das competições se começou a aproximar e, com alguma pressão positiva do Ricardo para participar fiquei reticente.

Foi uma frase do mestre Marcus Santos que selou a mudança de ideias que o Ricardo conseguiu operar em mim. O jiu-jitsu, como experiência muito positiva de superação, mudou certos conceitos da minha vida, mas continuava apenas a ser uma arte para mim. Até que o Marcus nos disse: “Quem diz que não quer competir está a enganar-se. Todos os dias competimos. Competimos por um emprego, competimos por uma promoção, competimos por um lugar mais adiantado numa fila… Estamos sempre a competir.”

Decidi participar no Campeonato Luso-Galaico. Foi a minha única e muito breve competição, porque a vida muda e acabei por me afastar da modalidade.
Curiosamente, depois de decidir competir começou a cooperação. A preparação para um campeonato é feita através de muita interajuda dentro duma academia. Preparamo-nos e ajudamos os nossos colegas a preparar-se para competir contra outras academias através da intensidade e da entrega que damos aos treinos.
Foram estes colegas os que primeiro me testaram e, posso garantir, os que me proporcionaram os combates mais duros e as finalizações mais difíceis para o ego.

O mesmo acontece na nossa vida. Este episódio no jiu-jitsu é a metáfora perfeita para qualquer actividade, nomeadamente para os negócios ou para a nossa vida profissional. Dentro duma estrutura empresarial continuam a existir objectivos pessoais. Um funcionário que quer um aumento, outro uma promoção e outro mudar de sector.
Para que possam cumprir os seus próprios sonhos a empresa tem de se manter funcional e saudável. Para competirem entre si têm de cooperar.

Um ambiente de recompensas através de objectivos funciona exactamente assim. Promete-se um prémio aos mais produtivos, aos “mais fortes”, sabendo que essa competição interna trará impulso para todo o ambiente corporativo, alavancando também os “mais fracos”.

Vendo bem, sob esta perspectiva, este título está errado, porque a competição não antagoniza a cooperação. Competem entre si por um lugar nas nossas vidas, cooperando no nosso crescimento e fazendo parte do nosso progresso.
Porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

O poder da preparação

Todos conhecemos aquele conselho que nos pode ser dado por qualquer familiar ou amigo: atenção às consequências dos teus actos. 

Por outro lado, existe uma ligeira tendência em não acreditarmos que aqueles que estão ao nosso lado possam ter interesses pessoais que se sobreponham a relação. 

Todos conhecemos, ainda, situações de simbiose, parecerias e sociedades que acabam com famílias e patrimónios de um dia para o outro. Separam-se aqueles que antes colaboravam e a relação esfria-se ao ponto de não interessar a nenhum dos dois lados o caminho do outro.

Esta é a história duma vitória em tribunal que muito nos deu que fazer. Uma adversidade que provou um ponto de vista que eu tenho desde sempre: a preparação é algo que costuma resultar em vitórias. Elmer Letterman disse uma frase que costumo usar no meu e-mail. “ Sorte é quando a preparação encontra a oportunidade.” Foi exactamente isso que ficou provado há poucos meses com aquela vitória.

Mas afinal o que tem de tão saboroso ganhar um processo judicial? A história. É uma história de manipulação, orgulho, desrespeito, oportunismo. Tem todos os traços típicos de série: vários episódios, envolvimento policial, corrupção, políticos surdos, morte, investigação provocativa…

O cuidado com que nos preparamos para o processo é algo impossível de descrever. A mim dá-me imenso prazer ler e procurar, pelo que houve um lado de prazer em procurar todas as subtilezas que tinham de ser apresentadas como prova da nossa inocência. 

Estava preparado e costumo estar um passo à frente. 

Foi, também por isto, uma experiência que nos deu mais força para continuar. Temos os nossos negócios, as nossas carreiras e, acima de tudo, os nossos sentimentos e valores. Respeitamos isso acima de tudo e queremos que todos respeitem também. 

O vídeo que se apresenta neste post é exactamente a celebração dessa vitória contra o desrespeito pelo trabalho digno que cada um faz. 

Sabemos que é difícil remar contra a corrente. Foi o que fizemos por sermos menos em número. Não basta força de braços para os remos, é preciso força mental para quando nos parece que estamos no mesmo sítio. 

Sim, é muito difícil remar contra a corrente, mas apenas aquele que o fazem podem beber da água mais fresca da fonte.

Enquanto isso, devemos divertir-nos com a paisagem das margens, para não custar tanto. Afinal, há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

 

 

Anormalmente Bom, de Nuno Fontes

28435008_584457785265166_1036851065699434496_n

Todos temos ambições. Temos sonhos, planos, projecções. Aguardamos um futuro melhor e fazemos para que isso aconteça (os que o fazem, pelo menos).

Um certo dia, duvidamos. Começamos a questionar se o caminho que escolhemos é aquele que realmente nos dará prazer e felicidade. Desviamo-nos daquela força interior que nos faz acordar motivados e não percebemos porque razão a sensação que antes tínhamos em relação às nossas escolhas mudou.

Anormalmente bom. Isso é o que cada um de nós gostaria de ser. Por isso, alguns de nós compram livros de auto-ajuda com fórmulas quase mágicas para tentar a resolução de todas as dúvidas.

Anormalmente Bom, escrito por Nuno Fontes, é diferente. É não-ficção dentro da ficção e uma compilação de conselhos que nos ajudam a ser cada vez melhores (e anormalmente bons) através da vida aparentemente bem-sucedida duma personagem que é ajudada a reencontrar essa alegria de ser, fazer e estar.

Escrito em formato de romance, Anormalmente Bom leva-nos a acompanhar o percurso de John Gibbins que, apesar de estar bem posicionado profissionalmente, perdeu o prazer em lutar e se encontra numa encruzilhada. Gibbins pensa que talvez não seja talhado para tudo aquilo que sonhou e interioriza isso de forma venenosa no seu desempenho. 

Através duma série de encontros com pessoas anormalmente boas e de várias lições de vida retiradas de histórias de superação alheias, Gibbins permite-se à permeabilidade e à escuta, cumpre um caminho diferente daquele que o levou até aqui e começa a aproximar-se da qualidade anormal ao mesmo tempo que reencontra a alegria. Enquanto isso, leva-nos com ele nesse percurso onde também somos bafejados pelos múltiplos conselhos de ativação energética, desempenho acima da média e prática de excelência.

O livro de Nuno Fontes é perfeito para quem aprecia boas histórias de concretização e é tão indicado para quem adora como para quem detesta livros de auto-ajuda. No fundo, quem quiser ser ajudado através duma checklist de procedimentos pode extraí-la dos conselhos que Gibbins recebe. Quem apenas se dedicar à história do executivo acabará, igualmente, por encontrar todos esses conceitos que dela fazem parte.

Como indicado na sinopse, “ao longo da caminhada, John apercebe-se gradualmente de que ser o melhor significa muito pouco e que lutar diariamente por ser cada vez melhor significa tudo.”

E isto é o mesmo que dizer que há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Voar não mata

unnamed

Quando a vida se transforma as dúvidas chegam até nós sob a forma de perguntas directas, mas a mudança que se operou não pode ser objectivada apenas em poucas respostas. Ainda assim, quem insiste em perceber uma tomada de decisão que resultou, uma batalha vencida ou um objectivo concretizado, não os vai perceber. É no detalhe e no processo, na consistência e na paciência que se encontra uma das maiores forças motrizes da aprendizagem.

Quando me perguntam se não me canso de viajar de avião a resposta é sempre negativa. Para mim, além dum prazer supremo, o voo não é um tempo morto. Faça dois voos num dias, vários numa semana ou apenas dois num mês, o entusiasmo é parecido e a atitude perante o tempo em que estarei confinado ao avião é semelhante.

Confinado? A escolha é propositada. Honestamente, apenas o corpo está confinado a um espaço que, graças aos programas de fidelidade das companhias, nem sequer é tão desconfortável quanto poderia ser. A mente, por seu lado, vagueia na palavra escrita, na imagem cinematográfica ou em notas musicais flutuantes. E no sono!

Tenho apreciado algumas obras-primas que acabam por se tornar sucessos mundiais, como La Casa de Papel, e descoberto enormes pedaços de entretenimento culturalmente estimulante que passam quase despercebidos, como vários dos últimos livros que li – Lire de Bernard Pivot e Cécile Pivot, Felices de Elsa Punset, Uma Biblioteca da Literatura Universal de Hermann Hesse, entre muitos outros que fazem querer que tenho a pontaria cada vez mais afinada… – e filmes surpreendentes como Sztuka Kochania, sobre a vida da sexóloga Michalina Wislocka, Primeiro Mataram o Meu Pai, de Angelina Jolie, ou 7 Años.

Poderia dispor estas intrusões num texto imenso, mas deixemos que este seja apenas o aperitivo. Qualquer refeição deve ser degustada e não apenas digerida, dar prazer enquanto nutre, porque nesta mesa cultural que se mostra tão abundante encontramos a metáfora da vida e das suas opções. Nela também há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

A Lei de Pareto e o serviço

lei-de-pareto-80-20

Segundo a Lei de Pareto, 80% dos clientes geram 20% das receitas ao passo que 20% dos clientes geram 80% das receitas. Esta Lei, segundo os seus apoiantes, aplica-se a praticamente todas as situações e sempre na proporção de 80/20.

Por isso, quando iniciei todas as minhas actividades de negócio e quando enfrentei todos os arautos da desgraça que afirmavam, peremptoriamente, que a concorrência é feroz, numerosa e impossível de bater, lembrei-me e defendi-me (como se precisasse ou tivesse alguma prova a dar) da relação entre a Lei de Pareto e o serviço.

20% das empresas fica com 80% dos clientes. Estas são as que prestam os melhores serviços. Isto significa que 80% das empresas está a manter-se, apenas, com o mínimo indispensável e, com cuidado, atenção e um serviço de qualidade são facilmente suplantadas.

Em suma, relacionando a Lei de Pareto com a prestação do serviço, para se atingir o mercado com eficiência basta localizar a nossa qualidade nos 20% superiores. Desta forma, estaremos à frente de 80% dos nossos concorrentes e a usufruir da grande maioria dos rendimentos do mercado em que nos aplicamos.

Até no que toca a leis, clientes e rendimentos há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.