Guilherme e os Duendes

capa

Decidi escrever um novo conto de Natal. Comecei por libertar aquelas amarras com que, por vezes, tentamos recriar o realismo. Baptizei as personagens com os primeiros nomes que me surgiram e alguns são bem estranhos. Fledik, Yordik, Taldik e Uldrik. Quatro duendes, ajudantes do Pai Natal, que compõem o coro mais bonito que possam imaginar. Neste conto, cantam para Guilherme, o menino que é a estrela da história.

A capa, muito mais bonita do que aquela que eu teria idealizado, foi criada pela Filipa Cardoso.

Como o Natal não se faz sem amor ao próximo, decidi oferecer metade do valor de capa para o Instituto Português de Oncologia. Faço uso das novas tecnologias e das suas vantagens. Não há intermediários. Há apenas a vontade de ser lido e de dar.

O preço do ebook (livro em formato electrónico) é de 2€, mas o pagamento é decidido pelos leitores. Independentemente do valor que escolheres, apenas 1€ é retido para registo da obra, ISBN e para promover outras actividades relacionadas com a iniciativa.

É uma história pequenina que me deu muito gosto criar. Relê-la, aquando da revisão do texto, foi para mim uma experiência sentimental, apesar de ter sido eu a criá-la e a dar-lhe o fim que tem. O Natal também é isto: criar e sentir.

Para vocês e para o IPO, Guilherme e os Duendes, porque qualquer escritor sabe que há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

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Uma Biblioteca da Literatura Universal, de Hermann Hesse

Hermann Hesse

Ler é uma das formas mais bonitas de viajar. Somar as duas actividades é viajar ao quadrado. Sentir o poder das palavras enquanto se vive a propulsão dos motores, a força gravitacional que nos impulsiona, dentro e fora, para um destino que é tanto físico como etéreo. 

Voando mais, leio mais. Há mais tempo sentado, menos solicitações do mundo moderno, mais tempo a sós. 

Nunca estou sozinho. Os livros sempre foram a minha maior companhia e o meu caminho preferido para o cumprimento de desígnios que acredito serem só meus. 

Por isso, hoje relevo Hermann Hesse e o seu Uma Biblioteca da Literatura Universal. 

Ler é uma actividade superior. Como em todas as faces superlativas da existência humana, nem todos os seus praticantes são merecedores dessa designação. Há quem leia sem saber ler.

Daí que proliferem as palavras superficiais, mais líquidas do ponto de vista quer da sua consistência quer do lucro. 

Hesse fala disso e de muito mais. De como seremos leitores diferentes em fases diferentes da nossa vida, de como podemos viver dentro e fora dos livros mas sempre através da leitura, de como somos muito mais humanos quando lemos do que quando deixamos despercebidas as palavras que a História nos deixou.

Fala ainda da liberdade. Renuncia aos intelectualismos de quem afirma que só lendo os clássicos se existe enquanto leitor, aproveitando para os sublinhar como obras notórias e dando liberdade ao leitor, como entidade, para que faça a sua própria coleção.

Não esquece a consciência. Cita o esforço que é necessário para crescer com os livros que lemos, surpreende-se com os nomes que, outrora desaparecidos, renascem nas mãos das novas gerações que agora os veneram imensamente.

Deste livro, poderiam sair tantos outros quanto interpretações diferentes da arte de ler. Tantos quantos somos enquanto leitores vivos. A sua versão, tão pessoal e íntima, abre-nos as portas à nosso própria essência, para que a agarremos e sintamos com a força que ela procura e merece.

Uma Biblioteca da Literatura Universal é prova de que só escreve quem lê. Só escreve bem quem lê melhor. Hesse é, por isso, um dos eternos leitores da Humanidade e concordaria que também na leitura há sempre um destino mas o que conta é a viagem.

Voar não mata

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Quando a vida se transforma as dúvidas chegam até nós sob a forma de perguntas directas, mas a mudança que se operou não pode ser objectivada apenas em poucas respostas. Ainda assim, quem insiste em perceber uma tomada de decisão que resultou, uma batalha vencida ou um objectivo concretizado, não os vai perceber. É no detalhe e no processo, na consistência e na paciência que se encontra uma das maiores forças motrizes da aprendizagem.

Quando me perguntam se não me canso de viajar de avião a resposta é sempre negativa. Para mim, além dum prazer supremo, o voo não é um tempo morto. Faça dois voos num dias, vários numa semana ou apenas dois num mês, o entusiasmo é parecido e a atitude perante o tempo em que estarei confinado ao avião é semelhante.

Confinado? A escolha é propositada. Honestamente, apenas o corpo está confinado a um espaço que, graças aos programas de fidelidade das companhias, nem sequer é tão desconfortável quanto poderia ser. A mente, por seu lado, vagueia na palavra escrita, na imagem cinematográfica ou em notas musicais flutuantes. E no sono!

Tenho apreciado algumas obras-primas que acabam por se tornar sucessos mundiais, como La Casa de Papel, e descoberto enormes pedaços de entretenimento culturalmente estimulante que passam quase despercebidos, como vários dos últimos livros que li – Lire de Bernard Pivot e Cécile Pivot, Felices de Elsa Punset, Uma Biblioteca da Literatura Universal de Hermann Hesse, entre muitos outros que fazem querer que tenho a pontaria cada vez mais afinada… – e filmes surpreendentes como Sztuka Kochania, sobre a vida da sexóloga Michalina Wislocka, Primeiro Mataram o Meu Pai, de Angelina Jolie, ou 7 Años.

Poderia dispor estas intrusões num texto imenso, mas deixemos que este seja apenas o aperitivo. Qualquer refeição deve ser degustada e não apenas digerida, dar prazer enquanto nutre, porque nesta mesa cultural que se mostra tão abundante encontramos a metáfora da vida e das suas opções. Nela também há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.