O bem que a D.Alzira me faz (por Maria João Marques)

Foto Artigo Maria João MarquesTenho cá para mim que a D. Alzira não sabe o bem que me faz.  Nem eu. Todas as manhãs desce ela a rua do Raio com a saca do pão do costume. E todas as manhãs me cumprimenta:

– Bom dia menina.

Todos os dias isto, mais nada durante os últimos oito meses.

A D. Ana, que trabalha na retrosaria em frente,  confidenciou-me que estas viagens matinais da D. Alzira não são mais que pretextos meticulosos para meter conversa com o Sr. Mesquita da tabacaria.

– Veja bem, Menina Teresa: a Alzira todos os dias, ate aos sábados, desce toda a escadaria, à mesma hora, dizendo as mesmas coisas, fazendo o mesmo percurso. Às nove e um quarto fecha a porta de casa, às nove e dezassete já cumprimenta o Sr. Olivais na mercearia e pelas nove e vinte já canta “bom-dia” como os melros, cá em baixo no cruzamento. É vê-la passar toda airosa no seus sessenta e muitos, a cara pintada de fresco e o cabelo amontoado num gancho.

Respondo à D. Ana que me parece bem a elegância da D. Alzira. Ela olha-me de soslaio, dá-me um até logo mais seco do que o costume e deixa-me só, enfim. A D. Ana anda à volta dos quarenta, veste preto e não se maquilha.

É por isso que tanto prezo a D. Alzira. Pela brevidade do que me dá; a possibilidade de continuar no meu silêncio. Enquanto ela vai rua acima, rua abaixo, eu imagino as dores, as alegrias e os sonhos da D. Alzira. Imagino-lhe o almoço, se tem filhos ou netos. Uns dias para mim é solteira, outros viúva e outros não é nada. Algumas vezes vejo-a de camisa de dormir, outros de lingerie e outros nua. Esta possibilidade de viajar na sua rotina, dá-me a certeza de que não estou sozinha. Consigo ver-me na vida e estórias dos outros. Deixo de ser a Ana, a narradora paciente e passo a ser quem quiser, da maneira que melhor me aprouver.

Há tantas maneiras de ser tanta coisa. Ha quem só trabalhe, há quem só pense, há quem só chore ou ria. Há quem prefira comentar os outros para dentro e há quem o faça para o público. Eu cá prefiro alimentar-me das romarias matinais da D. Alzira pela rua do Raio, das três únicas palavras que lhe oiço e do tanto que não lhe sei.

Que viagens faço eu todos os dias, cada uma sempre diferente da anterior graças ao corrupio da D. Alzira.

Por isso digo que a D. Alzira não sabe o bem que me faz.

Nem eu.

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A maturidade viajante (por Rafaela Oliveira)

Foto RafaViajar para mim é algo de extremamente emocional. Não viajo apenas para conhecer novos lugares. Viajo porque quando ouço falar da temperatura do mar, do sabor das comidas ou da imponência deste ou daquele lugar, automaticamente imagino a minha reacção a esses sítios e sensações.

Enquanto um lugar é desconhecido para mim, tenho que me contentar com a minha imaginação. Mas depois de lá estar, de pisar o chão, de sentir a energia que vibra no meio de todas as pessoas, começo a criar as minhas memórias. Sim, as memórias criam-se no presente. Gosto de pensar que tenho uma certa dose de inteligência geográfica: onde quer que vá, veja o que vir, nunca volto igual, trago sempre algo mais comigo. E da maior parte das vezes, não se trata de nada palpável. Vive apenas nesse grande centro emocional que é o cérebro…

E esta forma como encaro o acto de viajar também me fez chegar a uma conclusão ao longo dos anos, a de que ganhamos maturidade viajante. Por volta dos meus 16 fiz uma das viagens que mais me marcou, por diversos factores. E recordo-me hoje, com a mesma clareza da altura, da melancolia que sentia enquanto fazia a viagem de regresso a Portugal (cerca de 2000 km de autocarro, deu-me tempo para deixar a melancolia atingir limites recorde!). Sentimentos próprios da idade, mas na altura também me lembro de pensar que se era para me sentir assim sempre que viajasse, tinha que pensar duas vezes antes de voltar a fazer as malas. Mas esse grande senhor, cheio de classe e sabedoria, de nome tempo, encarregou-se de me mostrar que até em algo tão trivial como viajar há sempre lições a tirar. E, decididamente, não sou a mesma hoje quando parto de viagem, seja dentro ou fora, por muito ou pouco tempo.

A viajante que sou hoje em dia aproveita cada minuto, não como se não houvesse amanhã, mas para poder sentir essa plenitude que é falar de um lugar como se ainda lá estivesse.

Gustavo Carona: Histórias de pró-actividade alheia

Gustavo Carona

Vai para a décima missão humanitária. Tem trinta e oito anos. Duas frases que mereciam já uma vénia, mas ainda há muito para dizer sobre o Gustavo Carona.

Trabalhei com ele durante pouco tempo, em 2014, por altura da sua passagem na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocríticos do Centro Hospitalar de São João, no Porto. Por essa altura, já o Gustavo tinha feito missões humanitárias. No entanto, tenha sido pela curta convivência ou pela falta de tempo de conversa, nunca cheguei a perceber a dimensão do que ele fazia. Não tomei sequer conhecimento das missões a não ser através das redes sociais, já nenhum de nós trabalhava no mesmo sítio.

Quando isso aconteceu, senti que tinha perdido uma oportunidade: saber mais sobre as pessoas que sacrificam o seu conforto, que saem do seio familiar, que abandonam amigos durante largos meses para ajudar desconhecidos em cenários de guerra e desfavorecimento brutal não é para qualquer um.

A oportunidade chega em forma de livro. O Mundo Precisa de Saber. Não, não sou eu que afirmo. É o título do relato e é uma afirmação que o Gustavo faz frequentemente, chamando a atenção para flagelos que deflagram todos os dias pelo Mundo, sem que o “mundo” saiba.

Deixo-vos com o link. Não é meu apanágio escrever sobre um livro que ainda não tenha lido, mas a necessidade do mundo saber é mais forte. Não é pior se outros souberem primeiro, desde que todos saibam.

Voltarei a este livro mais tarde, com mais tempo e conhecimento de causa, mas este texto serve também de agradecimento. O mundo seria um lugar muito menos gracioso e bonito se não existisse o Gustavo. Se não existissem os Médicos Sem Fronteiras. Se não existissem todos aqueles que prescindem do que o Mundo tem para dar para poderem dar ao Mundo aquilo que ele mais precisa.

Este texto é, ainda, um abraço feito de palavras de força, para que às mãos destes heróis as atrocidades que nos auto-infligimos enquanto humanidade possam ser mais suportáveis para aqueles que as sofrem.

Gustavo Carona é médico e escritor. Publicou 1001 Cartas para Mossul, 1001 Cartas de Mossul e O Mundo Precisa Saber. Através da acção humanitária, viaja para lutar por um Mundo melhor, para melhorar a viagem dos menos favorecidos.

Porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Link Wook do Gustavo Carona e dos seus livros

Paco e Amplifica-Dor: Histórias de pró-actividade alheia

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Falar de empreendedorismo pode tornar-se algo vazio se não associarmos o conceito às pessoas. É através de cada um de nós que esta atitude se materializa e é no nosso círculo de conhecimentos que ela se reproduz.

Quando comecei a escrever não existiam redes sociais e, hoje, a literatura que as inunda não é, de todo, a mais prodigiosa. Enfrentei algumas dessas barreiras ora sozinho, ora com a ajuda de um círculo muito restrito.

Hoje, com um caminho construído à minha imagem, com opções muito próprias, sinto que essas dificuldades poderiam ter sido ultrapassadas de outra forma. Por isso, quando tenho oportunidade de apresentar a iniciativa de terceiros faço-o com gosto, cumprindo o lado positivo das teorias cármicas que tanto aplicamos pelo seu lado negro.Captura de ecrã 2018-12-04, às 22.27.28

O que explico no artigo anterior sobre o turismo, passa-se também na música. Não é preciso procurar longe para encontrar o que pensávamos ser um exclusivo de outras paragens. Não é preciso ir até Nova York para ter letras de rap duras. Não é preciso ir a San Diego para encontrar os novos Blink 182.

Paco, do colectivo 4T4 Team, e os Amplifica-Dor chegam até nós pelos meios digitais preferidos dos Millenials, a sua geração. Para trás fica o tempo em que a dependência de grandes labels faziam o talento dispersar-se até ao desaparecimento.

Podemos optar pelo realismo das palavras de Paco ou pelo ritmo empolgante dos Amplifica-Dor, mas em nenhum dos casos seremos indiferentes às mensagens que transmitem. O quotidiano de toda uma geração que sofre com as pressões sociais, que sente que o mundo a encurrala para a mediocridade ou que a obriga a ser mais do que que já existe.

Dependendo dos gostos o impacto será diferente, mas a iniciativa é de louvar em qualquer dos casos. De um lado as poderosas batidas, do outro as melodias electrizantes, ambos nos levam até ao mesmo capítulo que todos temos de percorrer para nos soltarmos dos grilhões do quotidiano e dar asas à criatividade.

Usufruam do rap de Paco ou do punk rock de Amplifica-Dor.

A continuarem com esta energia, o destino é o sucesso. Que o caminho seja também de diversão porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Links e Fichas técnicas:

F*CK THEM – Paco

https://www.youtube.com/watch?v=6fUrfTdPgSA

Letra e Voz: Paco (4T4 Team) – https://www.instagram.com/paco4t4

Gravação, mix e masterização: Duplo (RockitMusic) – http://www.instagram.com/duplo_rm

Produção: Northside – http://www.instagram.com/silva_4405

SOFIA – Amplifica-Dor

https://www.youtube.com/watch?v=jR6xqVgL_Ts

Áudio

Música, letra, arranjo e produção: Amplifica-Dor –http://www.instagram.com/amplifica_dor

Voz e baixo: Pedro Rafael – http://www.instagram.com/iampedrorafael

Guitarra: Hugo Alberto – http://www.instagram.com/portuguese.idiot

Bateria: Pedro Gonçalves – http://www.instagram.com/li_n8mare

Vídeo

Elenco

Sofia

Inês Drumond – http://www.instagram.com/kaleidoscop.e.eyes

Rockeiros

David Silva – http://www.instagram.com/david_morais5

Pedro Mateus – http://www.instagram.com/pedro_mateux

Juliana Santos

Desportistas

Ricardo Pina – http://www.instagram.com/_sl0thz_

Maria Seabra – http://www.instagram.com/mariajseabra 

Gonçalo Fonseca – http://www.instagram.com/goncalo_fonseca_

Nerds

Miguel Mota – http://www.instagram.com/mm_atoa 

Hugo Gonçalves – http://www.instagram.com/hugof.goncalves

Má Vida

Sofia Silva – http://www.instagram.com/_sofiaraquel_ 

Gustavo Carneiro – http://www.instagram.com/gustavo.carneiro.5205

Figuração e Técnica

Inês Tavares – http://www.instagram.com/_ines_tavaresxx

Sílvia Martins – http://www.instagram.com/s.martinss

Catarina Gomes – http://www.instagram.com/catgpinto

Francisco Teixeira – http://www.instagram.com/frankteixeira22

Maria Ruão – http://www.instagram.com/mariaruao

David Silva – http://www.instagram.com/itsdsilva182

Miguel Rangel – http://www.instagram.com/themiguelrangel

Diana Gonçalves – http://www.instagram.com/dianaisg

Turismo de Portugal

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O site www.visitportugal.com venceu o prémio de Melhor Site Oficial de Turismo Mundial dos World Travel Awards e o organismo responsável pela promoção deste sector nacional saiu vitoriosa na categoria de Melhor Organismo Oficial de Turismo Mundial.

Portugal mostra-se ao Mundo com uma imagem algo diferente daquela com que por vezes nos caracterizamos. Por vezes, prolongamos os estereótipos fazendo deles profecias auto-concretizáveis. Acomodamo-nos à imagem que criamos de nós mesmos e vivemo-la internamente.

Quando somos sujeitos à avaliação de terceiros os factos são diferentes. Somos vistos como um povo de trabalho, de superação pessoal, de aculturação positiva em comparação com emigrantes de outras origens.

Estes prémios valem mais do que as categorias a que dizem respeito. Valem pela atestação fidedigna, feita prova, de que somos muito mais do que pensamos ser.

Numa conversa casual, por altura de uma das minhas viagens, uma senhora afirmava-me que tinha adorado o sul do nosso país, que tinha pena de ainda não conhecer o norte e que alimentava o sonho de viver em Portugal. Porque temos mar, temos bom clima, temos qualidade de vida, somos hospitaleiros, temos uma das melhores gastronomias do mundo, temos preços baixos para o nível de vida dos estrangeiros e temos muita História. Ouvir tudo isto da sua voz, numa situação que não exigia qualquer tipo de elogio por simples simpatia, despertou em mim o orgulho de pertencer à nossa gente.

Houve uma altura em que, para além de pensarmos que a galinha da vizinha era melhor do que a nossa, tínhamos mau marketing. Agora, o único passo que nos resta é repetir em surdina que as galinhas alheias não são melhores, são apenas diferentes.

O marketing do Turismo português ganha pelos seus argumentos simples. Não precisamos de elaborações grandiosas,  basta mostrar o que sempre tivemos. Basta demonstrar como somos.

Se isso é suficientemente bom para quem nos vê do lado de fora devia ser motivo de orgulho para nós.

Somos um destino de eleição, mas temos um caminho a percorrer enquanto portadores da nossa identidade nacional.

Há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Fascismo, Um Alerta ( de Madeleine Albright)

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A política tem má fama. A culpa é, obviamente, de alguns políticos. Enquanto ciência, a política não pode ser ser negligenciada. É algo inerente à comunidade que todos constituímos. Fazemos política em casa quando estabelecemos regras de comportamento para os filhos; fazemos política quando negociamos algo com o nosso cônjuge; fazemos política todos os dias quando aceitamos algum incentivo no nosso emprego. Nas nossas empresas, fazemos política quando determinamos o caminho da nossa visão, quando cumprimos um objectivo a que nos propomos ou quando chamamos um funcionário à razão.

Todos somos políticos. Ainda assim, alguns têm o péssimo hábito de repudiar a política como se de algo venenoso se trata-se. Essa atitude passiva, que equivale aproximadamente ao silêncio durante uma conversa que não pode ser interrompida, está a criar um caminho de dissabores já percorridos na História.

A discussão política propagou-se em Portugal devido às eleições brasileiras. Jornais, como o Expresso, manifestaram-se claramente quanto à sua posição. Bolsonaro despertou a paixão de uns e o arrepio de outros através da sua inequívoca razão. Ou daquela que ele acha ter, pelo menos.

Defendo a democracia como uma solução politicamente humana de resolver os problemas nacionais e mundiais. Não gosto de ditadores nem de figuras que dizem usar a voz do povo querendo estar acima deste. Não gosto de desaforos políticos ou de gritos histriónicos que alimentam os tablóides.

Manifestei-me publicamente contra a eleição do actual Presidente do Brasil. Como escrevi neste  artigo, a evolução da sua persona política recorda-me assustadoramente outras que deram ao mundo uma face cheia de cicatrizes.

Numa das minhas habituais viagens, comprei o livro de Madeleine Albright intitulado Fascismo, Um Alerta. A primeira mulher Secretária de Estado dos Estados Unidos da América, vítima indirecta do fascismo e actual professora universitária escreve-nos sobre a sua preocupação. Não é um ensaio extremamente técnico. É uma colecção de dados que se consubstanciam entre si e que provam que o fascismo é algo que teve início mas que não terá fim.img_9941

Durante a leitura tive sensações pouco comuns. Concordância plena em algumas passagens, preocupação estimulada por factos que se somam, esperança de que os sinais sejam lidos conforme no livro. Encontrei nestas páginas ideias que gostaria que a memória não perde-se, como manifestei neste meu discurso.

Madeleine não nos fala de Bolsonaro, mas fala muito sobre Donald Trump. Divide-o dos absolutamente fascistas, mas descreve as características que o Presidente dos Estados Unidos possui que o aproximam dessa corrente. Considera-o legítimo, mas refere-se negativamente ao desrespeito que nutre pelas instituições democráticas.

Madame Secretary não faz dos políticos com comportamento desviantes uma amálgama. Diferencia-os com a nitidez de quem conviveu com muitos e de quem ouviu algumas verdades das suas bocas, apesar de deturpadas em nome do poder.

Mussolini, Hitler, Chávez, Maduro, Erdogan, Putin, Trump e a dinastia Kim da Coreia do Norte são apenas alguns dos líderes dissecados nas suas características quer positivas quer perigosas (sendo, algumas delas, coincidentes).

Um livro claro, lúcido e fruto da experiência política de quem ainda hoje frequenta a esfera do poder com o conhecimento do seu efeito aditivo e corruptor.

Um livro que nos mostra que a humanidade tem um destino que desconhecemos, mas que é também através da política (e da memória) que devemos construir o seu caminho.

Para o Homem há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Black Friday

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O termo Black Friday foi talhado como referência a uma crise financeira. A especulação do preço do ouro no final do século XIX, nos Estados Unidos, deu origem à desordem negra no mundo financeiro do País. A História prova-nos recorrentemente que é cíclica, certo?

Mais tarde, associou-se a expressão à passagem do vermelho ao preto (“from red to black”) no Thanksgiving, cores usadas na contabilidade dos retalhistas para representar o prejuízo e o lucro, respectivamente.

Houve ainda um período onde Black Friday era realmente negra devido à afluência de compradores histéricos e do aumento de criminalidade associada às multidões.

A reinvenção moderna deste dia relaciona-se mais com a imagem do lucro do que com os problemas apontados por outras versões, um toque de Midas comunicacional que permitiu associar os saldos absurdos a algo que poderia ter-se mantido como uma memória colectiva negativa.

Será que, afinal, a Black Friday deixou de ser tão negra?

Para as contas dos comerciantes, como antes, o negro é uma boa cor. Neste dia, ou período no caso das lojas que alargam o prazo a todo o fim-de-semana, nada melhor do que uma multidão que procura os seus produtos de forma despreocupada e apressada. É saudável e garante o início do período natalício que salvará a contabilidade até Março do ano seguinte.

Se analisarmos o fenómeno à luz de hoje e com um pouco mais de cepticismo o que o panorama  nos oferece é algo mais psicológico do que efectivo.

Todos temos acesso às mesmas notícias e aos comunicados da defesa do consumidor que alertam para preços iguais ou mais altos quando comparados com outras datas. É aqui que o efeito de grupo (ou de manada, se formos mais específicos e mais agressivos) entra em cena.

Abre-se o pano e eis a ribalta das lojas apinhada de gente que quer prioridade na altura da escolha dos produtos a preço de saldo. Já não importa que os preços não sejam assim tão baixos ou que tenham sido artificialmente aumentados no dia anterior para baixarem na Black Friday. O que mais interessa é chegar primeiro, participar da loucura, estar presente no evento mundial em que o dia se tornou.

Sabemos que o impulso é o maior inimigo das contas pessoais. Não podemos fugir dele, porque havemos de senti-lo mais cedo ou mais tarde, mas podemos controlá-lo.

A única forma séria de o fazer sem ficar alienado da febre e enclausurado em casa é procurar apenas os produtos que seguimos há algum tempo. Um casaco que desejamos há meses, aquela câmara fotográfica que andamos a namorar ou o jogo de vídeo que todos já têm mas cujo preço de lançamento achámos caro. Já conhecemos os preços normais desses produtos, por isso, se a promoção prometida existir na realidade é fácil saber se estamos a comprar bem.

Corremos o risco do preço ser igual e de ainda assim adquirirmos o produto. Uns são mais resistentes do que outros, mas ninguém é imune à manada.

Isto dito, não há que penalizar a Black Friday. Tem o nome perfeito. É negra no estacionamento livre, na confusão e, potencialmente, nas carteiras dos consumidores. É negra para os comerciantes se o negro for sinónimo de contas douradas. É negra porque percebemos quão pouco reflectem alguns quando a manada os impulsiona.

Faz parte das nossas viagens de consumidores. Devemos usufruir dela sem remorços e para isso tem de haver algum controlo.

Afinal, há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.