Black Friday

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O termo Black Friday foi talhado como referência a uma crise financeira. A especulação do preço do ouro no final do século XIX, nos Estados Unidos, deu origem à desordem negra no mundo financeiro do País. A História prova-nos recorrentemente que é cíclica, certo?

Mais tarde, associou-se a expressão à passagem do vermelho ao preto (“from red to black”) no Thanksgiving, cores usadas na contabilidade dos retalhistas para representar o prejuízo e o lucro, respectivamente.

Houve ainda um período onde Black Friday era realmente negra devido à afluência de compradores histéricos e do aumento de criminalidade associada às multidões.

A reinvenção moderna deste dia relaciona-se mais com a imagem do lucro do que com os problemas apontados por outras versões, um toque de Midas comunicacional que permitiu associar os saldos absurdos a algo que poderia ter-se mantido como uma memória colectiva negativa.

Será que, afinal, a Black Friday deixou de ser tão negra?

Para as contas dos comerciantes, como antes, o negro é uma boa cor. Neste dia, ou período no caso das lojas que alargam o prazo a todo o fim-de-semana, nada melhor do que uma multidão que procura os seus produtos de forma despreocupada e apressada. É saudável e garante o início do período natalício que salvará a contabilidade até Março do ano seguinte.

Se analisarmos o fenómeno à luz de hoje e com um pouco mais de cepticismo o que o panorama  nos oferece é algo mais psicológico do que efectivo.

Todos temos acesso às mesmas notícias e aos comunicados da defesa do consumidor que alertam para preços iguais ou mais altos quando comparados com outras datas. É aqui que o efeito de grupo (ou de manada, se formos mais específicos e mais agressivos) entra em cena.

Abre-se o pano e eis a ribalta das lojas apinhada de gente que quer prioridade na altura da escolha dos produtos a preço de saldo. Já não importa que os preços não sejam assim tão baixos ou que tenham sido artificialmente aumentados no dia anterior para baixarem na Black Friday. O que mais interessa é chegar primeiro, participar da loucura, estar presente no evento mundial em que o dia se tornou.

Sabemos que o impulso é o maior inimigo das contas pessoais. Não podemos fugir dele, porque havemos de senti-lo mais cedo ou mais tarde, mas podemos controlá-lo.

A única forma séria de o fazer sem ficar alienado da febre e enclausurado em casa é procurar apenas os produtos que seguimos há algum tempo. Um casaco que desejamos há meses, aquela câmara fotográfica que andamos a namorar ou o jogo de vídeo que todos já têm mas cujo preço de lançamento achámos caro. Já conhecemos os preços normais desses produtos, por isso, se a promoção prometida existir na realidade é fácil saber se estamos a comprar bem.

Corremos o risco do preço ser igual e de ainda assim adquirirmos o produto. Uns são mais resistentes do que outros, mas ninguém é imune à manada.

Isto dito, não há que penalizar a Black Friday. Tem o nome perfeito. É negra no estacionamento livre, na confusão e, potencialmente, nas carteiras dos consumidores. É negra para os comerciantes se o negro for sinónimo de contas douradas. É negra porque percebemos quão pouco reflectem alguns quando a manada os impulsiona.

Faz parte das nossas viagens de consumidores. Devemos usufruir dela sem remorços e para isso tem de haver algum controlo.

Afinal, há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

 

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Competição vs. Cooperação

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Competição é uma palavra muitas vezes conotada com uma atitude negativa. Como a Natureza é mais forte do que nós, a competição é algo inerente ao ser humano. Não lhe podemos fugir e, em última análise, dependemos dela enquanto espécie.
Fazendo parte do processo evolutivo a que todos estamos sujeitos enquanto pessoas, em qualquer das múltiplas dinâmicas da nossa vida, temos de participar na vida activa através dela.
Por outro lado, é indissociável da cooperação. São irmãs, duas faces da mesma moeda, ying e yang do nosso quotidiano.

Treinei jiu-jitsu durante pouco mais de um ano. Fui convidado pelo meu amigo Ricardo Silva a fazer um treino e, quando dei por mim, fazia uma aula de treino funcional antes dum treino de jiu-jitsu logo após uma noite inteira de trabalho. O meu objectivo era unicamente físico, o treino pelo treino. Até que a época das competições se começou a aproximar e, com alguma pressão positiva do Ricardo para participar fiquei reticente.

Foi uma frase do mestre Marcus Santos que selou a mudança de ideias que o Ricardo conseguiu operar em mim. O jiu-jitsu, como experiência muito positiva de superação, mudou certos conceitos da minha vida, mas continuava apenas a ser uma arte para mim. Até que o Marcus nos disse: “Quem diz que não quer competir está a enganar-se. Todos os dias competimos. Competimos por um emprego, competimos por uma promoção, competimos por um lugar mais adiantado numa fila… Estamos sempre a competir.”

Decidi participar no Campeonato Luso-Galaico. Foi a minha única e muito breve competição, porque a vida muda e acabei por me afastar da modalidade.
Curiosamente, depois de decidir competir começou a cooperação. A preparação para um campeonato é feita através de muita interajuda dentro duma academia. Preparamo-nos e ajudamos os nossos colegas a preparar-se para competir contra outras academias através da intensidade e da entrega que damos aos treinos.
Foram estes colegas os que primeiro me testaram e, posso garantir, os que me proporcionaram os combates mais duros e as finalizações mais difíceis para o ego.

O mesmo acontece na nossa vida. Este episódio no jiu-jitsu é a metáfora perfeita para qualquer actividade, nomeadamente para os negócios ou para a nossa vida profissional. Dentro duma estrutura empresarial continuam a existir objectivos pessoais. Um funcionário que quer um aumento, outro uma promoção e outro mudar de sector.
Para que possam cumprir os seus próprios sonhos a empresa tem de se manter funcional e saudável. Para competirem entre si têm de cooperar.

Um ambiente de recompensas através de objectivos funciona exactamente assim. Promete-se um prémio aos mais produtivos, aos “mais fortes”, sabendo que essa competição interna trará impulso para todo o ambiente corporativo, alavancando também os “mais fracos”.

Vendo bem, sob esta perspectiva, este título está errado, porque a competição não antagoniza a cooperação. Competem entre si por um lugar nas nossas vidas, cooperando no nosso crescimento e fazendo parte do nosso progresso.
Porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Qual é a forma certa de viajar? (por Ricardo Alves Lopes)

38631868_10212552814471535_358901455962243072_oConvém referir já: este texto não é propriamente sobre viagens. É uma batalha com que me tenho debatido em muitas questões da minha vida e da sociedade em que vivemos. É sobre o certo e não certo.

Em primeiro lugar, não há uma forma certa de viajar. Isto é a minha tal batalha interna e, mesmo, externa. Procuramos em tudo um certo e, com isso, damos pouco espaço ao incerto, ao improvável e, na verdade, ao incrível. O viajar é apenas mais um exemplo!

Vivemos numa era de colecionadores, mas onde tudo é efémero. Reparam na ironia? Juntar, para rapidamente esquecer. É assim que vivemos. E nas viagens isso reflete-se, também. Com a chegada dos blogs, redes sociais e tantas outras plataformas de partilha muito imediata e amplamente difundível, aumentamos a necessidade de ser incríveis. Precisamos estar alerta e em grande plano a todo o momento, senão o blog de viagens do lado surge mais vezes, com mais destinos, com mais experiências, e ficamos para trás. Sem audiência.

Este padrão de consumo atual, rápido, curto e efémero – propositadamente redundante! – influencia a forma como viajamos. Um fim-de-semana fora na companhia da nossa namorada não pode ser para nos deitarmos de papo para o ar, na areia, com o sol a tostar e o mar a zumbir pequenos assobios de mindfulness na nossa cabeça. Isso é desperdiçar uma viagem. Devíamos aproveitar para conhecer as terras em volta, os monumentos que a cidade oferece e a diversidade da zona, com praia, sim, mas também montanhas e arquitectura clássica. Não é?        

Eu acho que não. Isto é colecionar, à força, momentos. Não é tão boa a sensação de irmos a um sítio, gostarmos tanto, e termos vontade de um dia lá voltar para ver o que falta?

É.

Mas actualmente não aceite. Temos que ir, ver e fotografar. Muito. Bastante. A toda a hora. Aproveitar todos os momentos. Para que a viagem seja realmente incrível é quando voltarmos e contarmos aos nossos amigos, família e conhecidos. Porque lá nem tivemos tempo para saborear uma paisagem, parar numa esplanada, ouvir uma pessoa local a falar ou sentir o sol a queimar. Seja no Algarve, na Indonésia ou na América do Sul.

Mas isto é a forma errada de viajar? Não. Eu já fiz viagens assim que adorei. Só quis que pensassem nisto. Mas, como disse quase no início do texto, não há uma forma certa de viajar. Interessa é que gostemos.  

Métricas

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Ser trabalhador é bom. Ser consistente é óptimo. Cumprir objectivos é sensacional. Mas há perigos nas métricas.

Quando estabelecemos aquilo que queremos atingir fazemo-lo de forma fácil. A ideia pode estar já na nossa cabeça, percorrer o nosso inconsciente e a decisão acaba por ser imediata. A colocação em prática é sempre a parte mais difícil. Sabemos que temos de ter força para começar e aumentá-la para manter os nossos padrões. É por isso que nos servimos de métricas.

Para escrever um livro podemos definir o número de palavras; para vender um produto definimos o número de vendas que nos dará lucro; para viajar definimos o número de cidades que queremos ver e, nelas, os monumentos que queremos visitar.

E se tal não se der? É aí que entra a angústia. A sensação de ter falhado. Não damos espaço para o improviso, para o expontâneo. Não cedemos à novidade e podemos, por isso, perder até algumas das maiores vantagens de sairmos do sítio.

Ter métricas não é, por si só, desvantajoso. Pelo contrário, elas podem ajudar-nos a chegar onde queremos.

Ser dependente das métricas, isso sim, é péssimo. Devemos fazer o que queremos, o que gostamos, como gostamos e no tempo que nos aprouver. Podemos ter de cumprir prazos, é certo, mas devemos cumpri-los à nossa maneira.

Não há fórmula que se aplique a nós. Existem apenas os nossos meios, as nossas ideias.

É preciso concretizar, mas também é preciso ser livre.

Afinal, há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

O poder da preparação

Todos conhecemos aquele conselho que nos pode ser dado por qualquer familiar ou amigo: atenção às consequências dos teus actos. 

Por outro lado, existe uma ligeira tendência em não acreditarmos que aqueles que estão ao nosso lado possam ter interesses pessoais que se sobreponham a relação. 

Todos conhecemos, ainda, situações de simbiose, parecerias e sociedades que acabam com famílias e patrimónios de um dia para o outro. Separam-se aqueles que antes colaboravam e a relação esfria-se ao ponto de não interessar a nenhum dos dois lados o caminho do outro.

Esta é a história duma vitória em tribunal que muito nos deu que fazer. Uma adversidade que provou um ponto de vista que eu tenho desde sempre: a preparação é algo que costuma resultar em vitórias. Elmer Letterman disse uma frase que costumo usar no meu e-mail. “ Sorte é quando a preparação encontra a oportunidade.” Foi exactamente isso que ficou provado há poucos meses com aquela vitória.

Mas afinal o que tem de tão saboroso ganhar um processo judicial? A história. É uma história de manipulação, orgulho, desrespeito, oportunismo. Tem todos os traços típicos de série: vários episódios, envolvimento policial, corrupção, políticos surdos, morte, investigação provocativa…

O cuidado com que nos preparamos para o processo é algo impossível de descrever. A mim dá-me imenso prazer ler e procurar, pelo que houve um lado de prazer em procurar todas as subtilezas que tinham de ser apresentadas como prova da nossa inocência. 

Estava preparado e costumo estar um passo à frente. 

Foi, também por isto, uma experiência que nos deu mais força para continuar. Temos os nossos negócios, as nossas carreiras e, acima de tudo, os nossos sentimentos e valores. Respeitamos isso acima de tudo e queremos que todos respeitem também. 

O vídeo que se apresenta neste post é exactamente a celebração dessa vitória contra o desrespeito pelo trabalho digno que cada um faz. 

Sabemos que é difícil remar contra a corrente. Foi o que fizemos por sermos menos em número. Não basta força de braços para os remos, é preciso força mental para quando nos parece que estamos no mesmo sítio. 

Sim, é muito difícil remar contra a corrente, mas apenas aquele que o fazem podem beber da água mais fresca da fonte.

Enquanto isso, devemos divertir-nos com a paisagem das margens, para não custar tanto. Afinal, há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

 

 

Anormalmente Bom, de Nuno Fontes

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Todos temos ambições. Temos sonhos, planos, projecções. Aguardamos um futuro melhor e fazemos para que isso aconteça (os que o fazem, pelo menos).

Um certo dia, duvidamos. Começamos a questionar se o caminho que escolhemos é aquele que realmente nos dará prazer e felicidade. Desviamo-nos daquela força interior que nos faz acordar motivados e não percebemos porque razão a sensação que antes tínhamos em relação às nossas escolhas mudou.

Anormalmente bom. Isso é o que cada um de nós gostaria de ser. Por isso, alguns de nós compram livros de auto-ajuda com fórmulas quase mágicas para tentar a resolução de todas as dúvidas.

Anormalmente Bom, escrito por Nuno Fontes, é diferente. É não-ficção dentro da ficção e uma compilação de conselhos que nos ajudam a ser cada vez melhores (e anormalmente bons) através da vida aparentemente bem-sucedida duma personagem que é ajudada a reencontrar essa alegria de ser, fazer e estar.

Escrito em formato de romance, Anormalmente Bom leva-nos a acompanhar o percurso de John Gibbins que, apesar de estar bem posicionado profissionalmente, perdeu o prazer em lutar e se encontra numa encruzilhada. Gibbins pensa que talvez não seja talhado para tudo aquilo que sonhou e interioriza isso de forma venenosa no seu desempenho. 

Através duma série de encontros com pessoas anormalmente boas e de várias lições de vida retiradas de histórias de superação alheias, Gibbins permite-se à permeabilidade e à escuta, cumpre um caminho diferente daquele que o levou até aqui e começa a aproximar-se da qualidade anormal ao mesmo tempo que reencontra a alegria. Enquanto isso, leva-nos com ele nesse percurso onde também somos bafejados pelos múltiplos conselhos de ativação energética, desempenho acima da média e prática de excelência.

O livro de Nuno Fontes é perfeito para quem aprecia boas histórias de concretização e é tão indicado para quem adora como para quem detesta livros de auto-ajuda. No fundo, quem quiser ser ajudado através duma checklist de procedimentos pode extraí-la dos conselhos que Gibbins recebe. Quem apenas se dedicar à história do executivo acabará, igualmente, por encontrar todos esses conceitos que dela fazem parte.

Como indicado na sinopse, “ao longo da caminhada, John apercebe-se gradualmente de que ser o melhor significa muito pouco e que lutar diariamente por ser cada vez melhor significa tudo.”

E isto é o mesmo que dizer que há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Rio Moment’s, Castelo de Paiva

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A vida exige-nos perspectiva. Quando a enfrentamos e às suas solicitações, quando nos sentimos assoberbados pelo binómio espaço-tempo, quando nos vemos acantonados numa bola de neve que só quer crescer e ser uma avalancha adulta e cada vez mais fria. Quando, para dar valor ao que temos precisamos de tempo. Quando, em busca de paz, precisamos de distância.

Todos estes fenómenos são mais interiores do que exteriores, por muito que nos custe. A nossa disposição depende mais de nós do que da forma escorregadia do que nos rodeia. 

É, pois, possível mitigar a ansiedade e o novelo quotidiano a sós. Ainda assim, o dever de nos abrirmos ao mundo, quando somado à oportunidade ou à necessidade, pode ajudar-nos.

Na demanda do silêncio procuramos distância. Tendemos a medi-la em quilómetros.

Com a forma cada vez mais arredondada do mundo em que vivemos, onde as crianças nascem com genes tecnológicos, a distância deixa de existir. Ou passa a estar aqui ao lado.

Percebe-se logo no caminho que o Rio Moment’s Country House Paiva Valley vale a pena. A surpresa a cada curva, a inclinação inquietante, o “purgatório antes do paraíso” nas palavras de Lino.

Foi assim que se apresentou o nosso anfitrião. A cadência das suas palavras espelha o que nos rodeia: “o som do silêncio, dos pássaros e do rio Paiva”, como repete aos hóspedes em várias línguas. O seu discurso cuidado é a alegoria do espaço: sofisticação recatada.

A renovada quinta apresenta óptimas condições para a prática da introspecção e, se quisermos, da preguiça. O afastamento do urbano, os suspiros naturais, a decoração acolhedora, os sabores caseiros de Carla… Estamos em casa.

Há pormenores que se destacam como o baixo duma banda: fazem-nos falta apenas quando notamos a sua ausência. Aqui, são-nos oferecidos. 

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Podemos usufruir da infinity pool, do sossego duma cascata no final dum pequeno passadiço, da espessura adocicada do ar da montanha e, como se não bastasse, duma companhia cosmopolita e respeitadora, tudo isto a pouco mais de trinta quilómetros do Porto.

Enquanto usufruía do sol que negou continuamente a razão aos meteorologistas imaginei-me repetidas vezes a escrever num sítio assim. 

Era capaz de, apesar da minha relativa dependência da agitação da urbe, escrever ali.

E esse é o melhor elogio que posso fazer. 

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Nota: A mulher bonita fui eu que levei. Qualquer périplo é melhor acompanhado, porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Aqui vos deixo o link do Rio Moment’s no Booking, onde atingiu uma notável classificação de 9,5: http://www.booking.com/Share-8V6McH

Site Rio Moment’s: http://www.riomoments.com

 

Fotografias: ©Fernando Miguel Santos, ©Andreia Filipa Cardoso