Carta a Victor Hugo

incendie-notre-dame-fleche-mQuerido Victor Hugo,

Se pudesses sentir a dor desta perda estarias destroçado. Todo o imaginário que criaste está a ser partilhado pelas pessoas pela pior das razões. A tua Notre Dame de Paris ardeu de uma forma inimaginável num século em que primamos pela segurança sem conseguirmos assegurar a intangibilidade de vários desastres.Victor_Hugo

Não vale a pena encontrar culpados, depois da memória secular que se perdeu. Podemos duvidar de quem efectuava os trabalhos de restauro, do Vaticano que cuida menos das suas obras do que deveria, das administrações públicas e do seu tempo de resposta… Podemos duvidar de tudo e o resultado será o mesmo.

O deflagrar das chamas que um dia imortalizaste e que a Disney perpetuou aconteceu. O Quasimodo aparece nas nossas memórias, com o seu choro a tornar-se dolorosamente mais verdadeiro.

Quanto a mim, vivo a mesma sensação que experienciei com os últimos concertos do Pavarotti. Recebi a devolução de três bilhetes, primeiro por lesão, depois por doença e depois pela sua morte. Cheguei atrasado.

notre dameQuando visitei a tua cidade, deixei a Notre Dame para o fim e, na primeira vez, o vento fez encerrar a torre mais cedo. Da segunda vez, não tive tempo de a visitar.

Partilho a dor que tu terias. O presente faz questão de nos lembrar da pior forma que nada é eterno e que aquilo que consideramos perene pode desaparecer.

Curiosamente, a melhor referência que teremos da Notre Dame é tua.

Talvez seja essa a lição a tirar. Apenas a memória, as histórias dentro da História e aquilo que vivemos permanecem. O resto é tão efémero quanto nós.

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