Carta a Victor Hugo

incendie-notre-dame-fleche-mQuerido Victor Hugo,

Se pudesses sentir a dor desta perda estarias destroçado. Todo o imaginário que criaste está a ser partilhado pelas pessoas pela pior das razões. A tua Notre Dame de Paris ardeu de uma forma inimaginável num século em que primamos pela segurança sem conseguirmos assegurar a intangibilidade de vários desastres.Victor_Hugo

Não vale a pena encontrar culpados, depois da memória secular que se perdeu. Podemos duvidar de quem efectuava os trabalhos de restauro, do Vaticano que cuida menos das suas obras do que deveria, das administrações públicas e do seu tempo de resposta… Podemos duvidar de tudo e o resultado será o mesmo.

O deflagrar das chamas que um dia imortalizaste e que a Disney perpetuou aconteceu. O Quasimodo aparece nas nossas memórias, com o seu choro a tornar-se dolorosamente mais verdadeiro.

Quanto a mim, vivo a mesma sensação que experienciei com os últimos concertos do Pavarotti. Recebi a devolução de três bilhetes, primeiro por lesão, depois por doença e depois pela sua morte. Cheguei atrasado.

notre dameQuando visitei a tua cidade, deixei a Notre Dame para o fim e, na primeira vez, o vento fez encerrar a torre mais cedo. Da segunda vez, não tive tempo de a visitar.

Partilho a dor que tu terias. O presente faz questão de nos lembrar da pior forma que nada é eterno e que aquilo que consideramos perene pode desaparecer.

Curiosamente, a melhor referência que teremos da Notre Dame é tua.

Talvez seja essa a lição a tirar. Apenas a memória, as histórias dentro da História e aquilo que vivemos permanecem. O resto é tão efémero quanto nós.

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O bem que a D.Alzira me faz (por Maria João Marques)

Foto Artigo Maria João MarquesTenho cá para mim que a D. Alzira não sabe o bem que me faz.  Nem eu. Todas as manhãs desce ela a rua do Raio com a saca do pão do costume. E todas as manhãs me cumprimenta:

– Bom dia menina.

Todos os dias isto, mais nada durante os últimos oito meses.

A D. Ana, que trabalha na retrosaria em frente,  confidenciou-me que estas viagens matinais da D. Alzira não são mais que pretextos meticulosos para meter conversa com o Sr. Mesquita da tabacaria.

– Veja bem, Menina Teresa: a Alzira todos os dias, ate aos sábados, desce toda a escadaria, à mesma hora, dizendo as mesmas coisas, fazendo o mesmo percurso. Às nove e um quarto fecha a porta de casa, às nove e dezassete já cumprimenta o Sr. Olivais na mercearia e pelas nove e vinte já canta “bom-dia” como os melros, cá em baixo no cruzamento. É vê-la passar toda airosa no seus sessenta e muitos, a cara pintada de fresco e o cabelo amontoado num gancho.

Respondo à D. Ana que me parece bem a elegância da D. Alzira. Ela olha-me de soslaio, dá-me um até logo mais seco do que o costume e deixa-me só, enfim. A D. Ana anda à volta dos quarenta, veste preto e não se maquilha.

É por isso que tanto prezo a D. Alzira. Pela brevidade do que me dá; a possibilidade de continuar no meu silêncio. Enquanto ela vai rua acima, rua abaixo, eu imagino as dores, as alegrias e os sonhos da D. Alzira. Imagino-lhe o almoço, se tem filhos ou netos. Uns dias para mim é solteira, outros viúva e outros não é nada. Algumas vezes vejo-a de camisa de dormir, outros de lingerie e outros nua. Esta possibilidade de viajar na sua rotina, dá-me a certeza de que não estou sozinha. Consigo ver-me na vida e estórias dos outros. Deixo de ser a Ana, a narradora paciente e passo a ser quem quiser, da maneira que melhor me aprouver.

Há tantas maneiras de ser tanta coisa. Ha quem só trabalhe, há quem só pense, há quem só chore ou ria. Há quem prefira comentar os outros para dentro e há quem o faça para o público. Eu cá prefiro alimentar-me das romarias matinais da D. Alzira pela rua do Raio, das três únicas palavras que lhe oiço e do tanto que não lhe sei.

Que viagens faço eu todos os dias, cada uma sempre diferente da anterior graças ao corrupio da D. Alzira.

Por isso digo que a D. Alzira não sabe o bem que me faz.

Nem eu.

A maturidade viajante (por Rafaela Oliveira)

Foto RafaViajar para mim é algo de extremamente emocional. Não viajo apenas para conhecer novos lugares. Viajo porque quando ouço falar da temperatura do mar, do sabor das comidas ou da imponência deste ou daquele lugar, automaticamente imagino a minha reacção a esses sítios e sensações.

Enquanto um lugar é desconhecido para mim, tenho que me contentar com a minha imaginação. Mas depois de lá estar, de pisar o chão, de sentir a energia que vibra no meio de todas as pessoas, começo a criar as minhas memórias. Sim, as memórias criam-se no presente. Gosto de pensar que tenho uma certa dose de inteligência geográfica: onde quer que vá, veja o que vir, nunca volto igual, trago sempre algo mais comigo. E da maior parte das vezes, não se trata de nada palpável. Vive apenas nesse grande centro emocional que é o cérebro…

E esta forma como encaro o acto de viajar também me fez chegar a uma conclusão ao longo dos anos, a de que ganhamos maturidade viajante. Por volta dos meus 16 fiz uma das viagens que mais me marcou, por diversos factores. E recordo-me hoje, com a mesma clareza da altura, da melancolia que sentia enquanto fazia a viagem de regresso a Portugal (cerca de 2000 km de autocarro, deu-me tempo para deixar a melancolia atingir limites recorde!). Sentimentos próprios da idade, mas na altura também me lembro de pensar que se era para me sentir assim sempre que viajasse, tinha que pensar duas vezes antes de voltar a fazer as malas. Mas esse grande senhor, cheio de classe e sabedoria, de nome tempo, encarregou-se de me mostrar que até em algo tão trivial como viajar há sempre lições a tirar. E, decididamente, não sou a mesma hoje quando parto de viagem, seja dentro ou fora, por muito ou pouco tempo.

A viajante que sou hoje em dia aproveita cada minuto, não como se não houvesse amanhã, mas para poder sentir essa plenitude que é falar de um lugar como se ainda lá estivesse.

Guilherme e os Duendes

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Decidi escrever um novo conto de Natal. Comecei por libertar aquelas amarras com que, por vezes, tentamos recriar o realismo. Baptizei as personagens com os primeiros nomes que me surgiram e alguns são bem estranhos. Fledik, Yordik, Taldik e Uldrik. Quatro duendes, ajudantes do Pai Natal, que compõem o coro mais bonito que possam imaginar. Neste conto, cantam para Guilherme, o menino que é a estrela da história.

A capa, muito mais bonita do que aquela que eu teria idealizado, foi criada pela Filipa Cardoso.

Como o Natal não se faz sem amor ao próximo, decidi oferecer metade do valor de capa para o Instituto Português de Oncologia. Faço uso das novas tecnologias e das suas vantagens. Não há intermediários. Há apenas a vontade de ser lido e de dar.

O preço do ebook (livro em formato electrónico) é de 2€, mas o pagamento é decidido pelos leitores. Independentemente do valor que escolheres, apenas 1€ é retido para registo da obra, ISBN e para promover outras actividades relacionadas com a iniciativa.

É uma história pequenina que me deu muito gosto criar. Relê-la, aquando da revisão do texto, foi para mim uma experiência sentimental, apesar de ter sido eu a criá-la e a dar-lhe o fim que tem. O Natal também é isto: criar e sentir.

Para vocês e para o IPO, Guilherme e os Duendes, porque qualquer escritor sabe que há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Viagem ao Centro do Eu (por Alexandra Ferreira)

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Uma das minhas maiores paixões foi sempre Viajar pelo Mundo.
Apesar de toda a prévia preparação para cada viagem, a expectativa nunca era elevada. Optava antes por manter a aceitação do que viesse, como método preventivo para a decepção.
Através das viagens, em mundos aparentemente tão diferentes, gentes que apenas não falavam a mesma língua, eu optei por CRESCER.
Absorver o que aquele lugar tinha para mim enquanto Presente da Vida. Uma espécie de Viagem em “slow motion” até à minha Essência.
Assim é também, com o Life Coaching, uma viagem profunda e desafiante em cada etapa que surge.
Quanto maior é o auto descobrimento, maior é a vontade de apenas “ficar” no melhor de nós.
Enquanto LifeCoach entrego literalmente os “passaportes” para uma Viagem longa e profunda ao CENTRO DO EU.
Nunca nada ficará igual quando arriscas MUDAR!
Jamais poderás olhar inerte sobre a tua história, pois esta passará a ter VIDA dentro.

Anitta e a ética de trabalho

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A primeira vez que a Netflix me surpreendeu com a vida de um músico foi através do documentário sobre Keith Richards. Por detrás da capa de rockeiro, fumador compulsivo e antigo (?) consumidor de drogas, existe um homem sensível, que pondera a vida segundo os sentimentos e que ama o processo criativo como poucos. Escrevi sobre o seu documentário no artigo Keith Richards e o rock sentimental.

Nos últimos dois dias surpreendi-me de novo e, desta feita, com algo que diz respeito ao Pista de Aterragem.

Nasceu Larissa em Honório Gurgel, uma zona pobre do Brasil. Hoje, é dona de um império musical e atingiu vários tops mundiais com músicas cantadas em português, espanhol e inglês. Partiu do funk brasileiro. Hoje move-se facilmente entre vários géneros musicais.

Anitta já não é apenas a rapariguinha ambiciosa que nasceu em Honório, mas também. É uma marca de sucesso mundial, desejada por muitos, com um toque de Midas musical que transforma tudo em êxito.

Nunca fui um entusiasta da Anitta, mas a minha perspectiva mudou com o documentário que a Netflix produziu sobre a estrela brasileira. Não se trata de uma questão de gostos, porque o que é mostrado no documentário vai para além da pura opinião.

Anitta é um exemplo de ética de trabalho. Cria bom ambiente dentro da sua equipa, mas é exigente com todos os que a rodeiam e diligente em todos os seus compromissos. Com vinte e cinco anos a forma como lidera toda a sua entourage é surpreendente. As opiniões e as lágrimas de felicidade de alguns dos seus colaboradores mostram o poder de influência que Anitta tem.

Ao mesmo tempo que mantém a atitude provocadora e sensual, a artista não se coíbe de doutrinar os seus fãs sobre como devem proceder. Tudo porque também ela tem origens pouco favorecidas e conseguiu chegar até ao estrelato à custa do seu sacrifício.

É inspiradora a forma como se movimentou desde cedo para atingir os seus objectivos. Chegou a dar concertos em cima de grades de cerveja com amigas que ainda hoje inclui em alguns dos seus trabalhos.

Ao longo do lançamento da sua campanha musical Checkmate, Anitta desenvolve relações de afinidade e cumplicidade com produtores musicais de topo que acabam também por se surpreender com a facilidade de trabalhar em conjunto com a brasileira.

Apesar da sua jovem idade, Anitta fala fluentemente as três línguas em que canta, o que não é nada comum para um brasileiro com as suas origens. O seu discurso sobre o caminho percorrido é elaborado e as saídas jocosas sobre o facto do funk brasileiro ser considerado, cito, “música para burros” são utilizadas amiúde.

A sua dependência do trabalho acabou por custar-lhe o casamento. Isso prova talvez duma forma ainda mais contundente o compromisso que Larissa tem com Anitta e o sucesso. A forma presente como gere o marketing, a ideia de lançar um vídeo musical de Checkmate por mês, o videoclip transmitido em directo no dia do seu aniversário com uma produção fora de série e a colaboração com nomes como J Balvin, Alesso, Poo Bear, entre outros, é alucinante.

Não consigo criticar o facto de ser workaholic. Revejo-me de alguma forma na sua forma de querer estar presente em tudo e até na maneira aparentemente descontraída com que aparenta lidar com toda a pressão.

O documentário mostra isto e muito mais em apenas seis episódios de meia hora, mas foi o suficiente para mudar a percepção que tinha de Anitta. Em vários momentos, a semelhança com a atitude minuciosa de Michael Jackson em This Is It salta à vista. Não há detalhe que seja deixado ao acaso.

A viagem de Anitta já conta com vários marcos e quem com ela trabalha afirma que não há destino que a possa limitar. O que é tomara ser tomado como exemplo, porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Gustavo Carona: Histórias de pró-actividade alheia

Gustavo Carona

Vai para a décima missão humanitária. Tem trinta e oito anos. Duas frases que mereciam já uma vénia, mas ainda há muito para dizer sobre o Gustavo Carona.

Trabalhei com ele durante pouco tempo, em 2014, por altura da sua passagem na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocríticos do Centro Hospitalar de São João, no Porto. Por essa altura, já o Gustavo tinha feito missões humanitárias. No entanto, tenha sido pela curta convivência ou pela falta de tempo de conversa, nunca cheguei a perceber a dimensão do que ele fazia. Não tomei sequer conhecimento das missões a não ser através das redes sociais, já nenhum de nós trabalhava no mesmo sítio.

Quando isso aconteceu, senti que tinha perdido uma oportunidade: saber mais sobre as pessoas que sacrificam o seu conforto, que saem do seio familiar, que abandonam amigos durante largos meses para ajudar desconhecidos em cenários de guerra e desfavorecimento brutal não é para qualquer um.

A oportunidade chega em forma de livro. O Mundo Precisa de Saber. Não, não sou eu que afirmo. É o título do relato e é uma afirmação que o Gustavo faz frequentemente, chamando a atenção para flagelos que deflagram todos os dias pelo Mundo, sem que o “mundo” saiba.

Deixo-vos com o link. Não é meu apanágio escrever sobre um livro que ainda não tenha lido, mas a necessidade do mundo saber é mais forte. Não é pior se outros souberem primeiro, desde que todos saibam.

Voltarei a este livro mais tarde, com mais tempo e conhecimento de causa, mas este texto serve também de agradecimento. O mundo seria um lugar muito menos gracioso e bonito se não existisse o Gustavo. Se não existissem os Médicos Sem Fronteiras. Se não existissem todos aqueles que prescindem do que o Mundo tem para dar para poderem dar ao Mundo aquilo que ele mais precisa.

Este texto é, ainda, um abraço feito de palavras de força, para que às mãos destes heróis as atrocidades que nos auto-infligimos enquanto humanidade possam ser mais suportáveis para aqueles que as sofrem.

Gustavo Carona é médico e escritor. Publicou 1001 Cartas para Mossul, 1001 Cartas de Mossul e O Mundo Precisa Saber. Através da acção humanitária, viaja para lutar por um Mundo melhor, para melhorar a viagem dos menos favorecidos.

Porque há sempre um destino, mas o que conta é a viagem.

Link Wook do Gustavo Carona e dos seus livros